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Qualidade de Vida

             A Fisiatria, ou Medicina Física e Reabilitação, foi uma das primeiras especialidades médicas a se preocupar com a qualidade de vida, já que, em sua essência, ela trata das constantes perdas funcionais a que estamos sujeitos no decorrer da vida. Ao estudar o curso natural das doenças incapacitantes, a Fisiatria tem como objetivo diminuir o impacto destas perdas na vida social e profissional do indivíduo.

            Sabemos que o envelhecimento do corpo leva a perdas funcionais nos sistemas e órgãos, mas, contrariamente ao que se imagina, tais perdas exclusivas da idade são da ordem de 20% e não geram maiores problemas nas atividades práticas e diárias do indivíduo. Todos nós temos exemplos de idosos dinâmicos, produtivos, integrados à sociedade. Entretanto, no decorrer da vida, passamos por provações, morbidades, hábitos inadequados que podem fazer com que estas perdas se tornem muito maiores. Cabe, portanto, aos médicos de hoje, estarem sempre atentos a estas possibilidades e, assim, mudar o curso natural das doenças.

Além da prevenção primária, o médico fisiatra deve ter também como objetivo a prevenção secundária das doenças incapacitantes, ou seja, prevenir as conseqüências destas doenças capazes de gerar síndromes dolorosas, paralisias, fraquezas, dificuldades de movimento, deformidades.

            Para tanto, o paciente deve ser avaliado como um todo, com suas interdependências físicas, psíquicas e sociais. A realização do diagnóstico etiológico e funcional é prioritário. Um dos pilares importantes da Fisiatria é o trabalho em equipe e a interdisciplinaridade. O trabalho conjunto com profissionais da área de saúde requer treinamento em coordenação, dinâmica de grupo, conhecimento de meios físicos, cinesiológicos, ocupacionais, comportamentais, para que haja uma sintonia entre a equipe e  potencialização de resultados. O conhecimento pormenorizado do estudo do movimento, postura, adaptação cardio-respiratória ao esforço, riscos músculo-esqueléticos e status neurofuncional capacitam o médico fisiatra a orientar a melhor atividade física e suas restrições para um determinado indivíduo, visando prevenção primária e secundária de doenças e incapacidades.

            Como mais de 60% das síndromes incapacitantes estão compreendidas no sistema neuromusculoesquelético, citaremos a seguir as novas tecnologias disponíveis para o tratamento das suas conseqüências:

-     uso de toxina botulínica para tratamento da espasticidade, síndrome motora incapacitante que gera contraturas, deformidades, dor e principalmente perda de movimento

-     uso de correntes elétricas bem próximas da fisiológica visando contrair                     músculos paralisados, como a FES ( functional electrical stimulation)

-     uso do biofeedback para, através de estímulos visuais, auditivos e sensoriais, acelerar a neuroplasticidade, ou seja, facilitar a reoganização cerebral para retornar um comando antes perdido por uma lesão no cérebro ou sistema neuromuscular

-     manejo de drogas, meios físicos, bloqueios de pontos motores ou gatilhos no tratamento de dores de difícil controle

-     prescrição de órteses, próteses, adaptadores e conhecimento de tecnologia assistiva visando proteger, imobilizar, suportar, substituir membros ou funções perdidas ou danificadas

  A preocupação e objetivo da Medicina Física e Reabilitação é de inserir independência e dignidade na vida cuja duração foi prolongada pelos avanços da ciência. A grandeza de uma sociedade pode ser medida pelo espaço dedicado à reabilitação dos seus integrantes, já que mostra a crença no ser humano enquanto indivíduo, com direito de ter qualidade de vida inserida na quantidade de vida conquistada por esta mesma sociedade. 

Claudia Fonseca Pereira 
Presidente da Associação Brasileira de Medicina Física e Reabilitação


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